Abacaxi, sapé, urubu, Itapeva e Jurandir. Palavras como estas da flora e fauna, nomes geográficos e próprios, usadas no dia a dia, vêm do tupi, da língua indígena. Foi com a frase “Mas agora ele só tem o dia 19 de abril”, que Jorge Bem Jor compôs, e Baby do Brasil consagrou com sua voz o índio brasileiro. Aos desavisados, Gabriel o Pensador deixou seu recado: “Índio trouxe o cachimbo da paz”.
Com estas e muitas outras homenagens, o índio vem figurando na imprensa. Nem nos tempos do romantismo literário, em que o índio era idealizado por José de Alencar em romances, tamanha simpatia existiu. Tanto que, em Brasília, capital do progresso, distante das terras de origem; jovens afoitos recebem o índio com calorosa recepção à base de fósforo e álcool queimando-o em banco de praça pública. “E Viva o índio brasileiro”.
O reconhecimento desta realidade exigiu da sociedade indígena um esforço imenso, no sentido de construir mecanismos que permitam um mínimo de controle das relações entre índios e brancos, sem protecionismo. A pretexto de serem civilizados, os primitivos são enviados às escolas para se “branquearem”, ganham leis de proteção, uma religião para serem salvos do inferno e para que fiquem fora do perigo da extinção.
Para não ser totalmente sucumbido, o índio tentou uma saída: A integração com a cultura branca a um preço alto; com troca da oca pela favela sendo desfavorável. A identidade dele ficou massacrada e longe de um resgate, mesmo quando personalidades internacionais fazem uma tentativa. “Enquanto os brancos estão aí nos violentando, tomando nossas terras; a situação das tribos fica cada vez mais difícil”. Afirma um cacique Ianomâmi.
A par de sua dedução numérica, os índios tiveram multiplicado sua importância enquanto símbolo. Para os próprios índios, eles não são símbolos de coisa alguma, pois dos 3 milhões de nativos, na época do descobrimento do Brasil, hoje, segundo a Funai, existem cerca de 900 mil, distribuídos em 804 reservas, sendo 680 regularizadas. “Agora, todo mundo vem ver os índios. Antropólogos, biólogos, geólogos. Quando tiverem tomado conta de tudo que temos e descobrirem a que espécie nós pertencemos e já tiverem colocado uma etiqueta em nossos pescoços, aí, talvez, nos devolvam a liberdade e nos deixem em paz”.
Orlando Villas-Boas, já falecido, passou 45 anos na selva e afirmou que “eles não são criaturas santas, apresentam defeitos como todas as criaturas”. Mas a realidade eminente aponta para uma comunidade que quer apenas viver em paz, com seus colares, penachos, radinhos de pilha, DVDs, canetas, celulares e índigo blue.