Somos realmente livres para pensar?

Bernardo Santos

 

     Segundo  Teócrito  de  Corinto,      filósofo grego do século II, ninguém,  nem aos deuses,   nem aos demônios,     nem as tiranias da terra,  nem as tiranias  do  céu,  foi dado  o  poder  de  impedir  aos  homens  o  exercício daquele   que  é  o primeiro  e  maior   de  seus atributos:    o exercício  do  pensamento.      Podem  amarrar as mãos de um homem, impedin Podem  vazar-lhe   os   olhos,    impedindo   a  visão.     Podem cortar-lhe a língua, impedindo a fala, mas o direito de pensar, o poder de pensar,  porem está acima  de  todas  as  violências   e   de   todas  as repressões,    que nada podem contra seu exercício.   Se assim o quiseram os deuses, se assim o quer  a  própria   natureza  humana,  parece claro que não há abuso  mais  abominável   que   o   tentar   impor   limitações   aos   pensamentos     de qualquer pessoa.

     A   Liberdade   de   Pensamento   (liberdade de consciência,   liberdade  de opinião ou liberdade  de ideia)   consta  na  Declaração  Universal   dos  Direitos  Humanos  em seu  artigo XVIII,    que   expressa  que   "todas  as pessoas  tem direito à liberdade  de  pensamento,   consciência              A  liberdade  de  pensamento também está contida  na  Constituição Federal de  1988,  em  seu   art. 5º,   inciso IV,   considerada  como       “um direito fundamental”.  Além  disso,  é  corroborada   com   o   dispositivo   220  da  Carta  Magna  que reza:    “A manifestação   do pensamento,  a criação,  a expressão e  a informação,  sob qualquer forma, processo  ou  veículo não sofrerão qualquer restrição, observado  o  disposto nessa Constituição”.

     Mas somos livres e temos realmente liberdade de pensamento?

     As deturpações de seu conceito não deixaram de atingir a mentalidade e a consciência dos estudantes universitários. A convivência com modelos avançados rápida e indiscriminadamente, sem o devido senso crítico e a censura da inteligência racional e superior, promove uma espécie de "evolução" intelectual que domina e massifica a atual geração. O novo, associado a ideia de contestação e de revolta, induz a metamorfose do conceito de liberdade e a sua imediata aplicação. E vivemos sob a égide do que não é liberdade. Falsa liberdade que confunde, em vez de nortear; que aliena, em vez de conscientizar; que entristece, em vez de alegrar; que destrói, em vez de construir.

     Para Newton Luís Mamede, Ombudsman da Universidade de Uberaba - MG, os  conceitos estão adulterados e precisa, urgentemente, corrigir o seu rumo. A liberdade de pensamento e de atitude científica precisa acontecer, sim, mas de forma lúcida e equilibrada, sempre com o controle da razão, da consciência crítica e esclarecida, da consciência madura e superior. A liberdade, em seu sentido pleno, reto, responsável, é parceira do compromisso. Coexiste com ele. Compromisso com a verdade e com os valores ontológicos do homem. Valores universais e imutáveis, por isso, essenciais. A liberdade real é o exercício desses valores e o compromisso de os fazer valer e se impor. A liberdade humana é a garantia da manifestação do que é essencialmente humano. É o pleno direito de existir e de agir como homem. É o compromisso com a inteligência.

     A liberdade de Pensamento, em seu sentido estrito, é inalienável, inquestionável. Reivindicar a liberdade de pensar significa lutar pela liberdade de exprimir o pensamento. Portanto, em um sentido ético, trata-se do direito de escolha pelo indivíduo de seu modo de agir, independentemente de qualquer determinação externa. Já no sentido político, a liberdade civil ou individual é o exercício de sua cidadania dentro dos limites da lei, respeitando os direitos individuais. Como disse Spencer: "A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro". 



Sonho de um mundo perdido

Bernardo Santos

 

            A despreocupação está presente pelas ruas, o vento sopra forte pelo azul celeste e uma estrela emite mil raios de luz aos olhos da multidão. Não há guerra, fome, pobreza, riqueza, todos são iguais; um cede ao outro o amor, a compreensão, a união, o calor, a fraternidade, a amizade e a vida. Fazer parte deste ciclo é tão fácil quanto jogar ao longe todos os problemas contidos em cada pessoa.

            O princípio, meio e fim não existe; os direitos são iguais para todos e, cada um tem o livre arbítrio de construir seu lar, seu paraíso totalmente em paz. É um verdadeiro mundo de solidariedade humana.

            Um som estridente ecoou e abalou toda esta felicidade: o despertador, dizendo que é manhã, hora de se levantar. No despertar vê-se a imagem de um mundo diferente, onde há tristeza e tudo é frio, que as pessoas não possuem sentimentos porque só pensam em si mesmas e nunca no próximo, e então percebe-se que é apenas um sonho na imaginação do homem que acorda para o dia natalino, como se esta festa fosse comemorada em glória de um novo amanhecer, resplandecendo a alegria como sendo o fruto do presente, estabelecendo a paz de um novo mundo.

            Seria tolice dizer “PAZ”, quando esta deixou de existir e muito mais ridículo seria dizer “Feliz Natal”, quando este está presente nas mesas abarrotadas dos ricos e ausente na barriga do pobre.

            A Terra deixou de ser um Planeta em que se diz que é o único lugar que se encontra existência de vida, e assim um sonho de rosas se torna perdido no universo, quando este apenas transmite e relata o íntimo de cada um e o que a humanidade não possui.

 

Publicado na revista Noti-Sears ed. Nov/Dez - 1981



Ser Charlie ou não?

Bernardo Santos

                                     

     Je suis Charlie” (Eu sou Charlie). Esta frase difundida em textos e imagens pela imprensa mundial e nas redes sociais, após o ataque da quarta-feira, 7 de janeiro, à redação do jornal satírico francês "Charlie Hebdo", no centro de Paris, onde onze pessoas ficaram feridas e doze foram mortas; entre elas quatro cartunistas, dois desenhistas e dois policiais, causaram emoções e deixou o mundo consternado e dividido. O semanário se destaca há anos como um veículo que faz sátiras sobre tudo e todos, inclusive a respeito do fundamentalismo islâmico. Mas afinal, ser Charlie ou não? Há controvérsias de opiniões.

     Do ponto de vista ao atentado, do terrorismo e da violência, a maioria condena tal prática, principalmente quando a escolha é por tirar a vida de alguém.

     Quanto à liberdade de expressão, diz-se que é o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos. Em todas as suas formas, ela é fundamental e intransferível, inerente a todas as pessoas, e um requisito para a existência de uma sociedade democrática. Mas, diz o ditado que, o direito de um começa, quando o de outro termina. Será?

     O Humor, sinônimo de alegria está mais triste e substituiu o riso pelo choro. Não se pode calar a voz de radialistas, apagar as letras de jornalistas, queimar filmes de cinegrafistas e passar uma borracha nos desenhos dos cartunistas, mas qualquer forma de manifestação precisa estar atrelada a uma ética, pois aquele que ofende um dia pode também se sentir ofendido e então as coisas mudam de posição.

     As balas não foram a melhor resposta. A morte não foi o melhor remédio. Somos livres para escolher, mas prisioneiros das consequências.

     O que poderia ter sido evitado?

 


Sua amizade

Bernardo Santos

 

     Amigo o que houve? Por que esta dor profunda, vida difícil, mágoa? Você não pode deixar-se envelhecer por uma coisa que já passou e deixou marcas. Veja como os sentimentos traem a razão. Deixe de lado essa impassibilidade, traga a verdade em suas palavras e não se desespere. Esqueça o eterno, o consumo, a maquina e seja você.

   Amigo, não fique triste. Lembre-se do nosso tempo de colégio, onde vivíamos sempre rindo. Você praticamente não tinha problemas; inclusive, quando outros amigos os manifestavam, era você quem tentava ajuda-los a resolver. “Que bonito, não é?”. Se hoje tentar seguir em frente de cabeça erguida torna-se difícil e inseguro, imagine então seguir sozinho por uma longa estrada escura sem ninguém com quem falar. “Não é bom, você não acha?”.

     Amigo, que posso fazer para retirar-lhe esta tristeza em seu rosto? A vida passa e com ela nós passamos também. Não há o que possa oferecer-te que já não o tenhas, mas há muitas coisas que posso fazer para ajudar-te, embora já tenha tentado tudo e você nem ao menos reagiu ouvindo-me. Gostaria imensamente de lhe pedir desculpas e dizer para que esqueça quem lhe fez sofrer e volte a sorrir comigo desta piada sem inicio, sem meio e sem fim. 

 


                                        Saudades Vinicius

Bernardo Santos

 

     Quem não se lembra da garota de Ipanema? Do seu doce balanço que era mais que um poema? Quem não se lembra da “angústia de quem vive, quem sabe a solidão, fim de quem ama”? Quem não se lembra mais? Quem se lembra de Vinicius de Moraes?          

     Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes, segundo o biógrafo José Castello e o pesquisador Pedro Paulo Malta; Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, para Manuel Bandeira; Marcus Vinicius de Moraes, de acordo com a irmã Laetitia de Moraes Vasconcelos, e finalmente, Vinicius de Moraes para o eterno poeta.  Nasceu em 19 de Outubro de 1913, no Rio de Janeiro, aonde também veio a falecer em 9 de Julho de 1980. Passou parte de sua infância na Ilha do Governador. Além de poeta, foi cronista, crítico de arte e cinema, teatrólogo e cinematografista. Fez o curso de Direito no Rio, estudou Literatura em Oxford e viveu nos E.U.A. Ingressou na carreira diplomática por concurso em 1943, tendo servido em Los Angeles, Paris (duas vezes) e Montevidéu. Foi várias vezes Delegado de nosso país nos festivais internacionais de cinema de Cannes, Berlim, Locarmo, Veneza e Puenta del Este e, em 1966, membro do júri internacional de Cannes. Escreveu seu primeiro poema aos sete anos de idade, e teve seu livro de estreia publicado com dezenove: O caminho para a distância -(1933).

     Sua poesia enquadra-se na segunda fase do Modernismo Brasileiro, sendo ele o último representante do movimento dentro das suas linhas doutrinárias estritas. Sua obra divide-se em duas fases: a primeira caracterizou-se por uma tendência transcendental, mística, quando se debatia entre a carne e o espírito; era hermético, inquieto, patético e dramático.

     “Quando, aquela noite, na sala deserta (...) / eu aspirava a sua respiração ácida e pressentia a sua deglutição monstruosa (...) / e eu me vi só, nu e só e era como se a traição tivesse me envelhecido eras (...) / Quem és que te devo procurar em toda a parte e estas em cada uma? / Espírito, carne, vida, serenidade, morte, por que não serias uma? (...) / Mas passando sobre o rosto a mão gelada senti que chorava as puríssimas lágrimas de Ariana (...) / no silêncio profundo daquela casa cheio de montanha em torno.” (Ariana, a mulher – 1936).

     Já a segunda, dominada pela sedução do mundo material, da atração do coletivo e do político, buscando vitórias sobre os preconceitos de sua classe e do seu meio.

     “A minha pátria é como se não fosse, é íntima (...) / A minha pátria é sedenta, o grande rio secular que bebe nuvem, come terra e urina mar (...) / Não te direi o nome, pátria minha (...) / Uma ilha de ternura: a ilha Brasil, talvez (...) / Pátria minha, saudades de quem te ama...” (Pátria minha – 1949).

     Tendo começado pela forma ampla, o poeta não buscou ir mais longe; ao contrário, procurou conter-se, conseguindo ganhar com isso em simplicidade e concisão. Já o lirismo, a constante de sua poesia, ele o levou também para a música popular, alcançando êxito internacional como verdadeiro papa da Bossa-nova, e fez muito mais ainda, que somente os olhos e ouvidos podem confirmar.

     “Vai, minha tristeza / e diz a ela / que, sem ela não pode ser / diz-lhe numa prece / que ela regresse / porque eu não posso mais sofrer.” (Chega de saudade – 1958).

     Vinicius não fora um poeta, e sim um pai para a poesia. Iniciou com certa impregnação religiosa, com poemas longos, de acentos bíblicos, mas que abandonou pouco a pouco em favor de sua tendência natural: a poesia intimista, pessoal, voltada para o amor físico, com linguagem ao mesmo tempo realista, coloquial e lírica.

     No centenário de seu nascimento, seu corpo não está mais presente no mundo louco dos homens. Suas obras sim, ficaram e estão aí para aqueles que ainda guardam consigo fragmentos mínimos de humanidade, e não devem ser apenas lidas, revistas; mas analisadas e compreendidas, para que o muito de tudo que foi feito, seja o pouco de tudo que foi visto.

     A saudade é doce e amarga, já o disse o poeta E’Punhal, que fere e vivifica. Para a vitória completa de um sentimento é preciso que a saudade seja inscrita nas suas páginas de honra.

 


Saúde! Mais para interjeição que solução

Bernardo Santos

 

     “O Brasil, com um território tão vasto, precisa de muito mais gente para ocupá-lo e explorá-lo”. Victor Civita dizia que isso seria possível se o país tivesse uma população sadia, preparada politicamente e capaz de produzir a níveis adequados e não como ocorre, a níveis muito próximos da subsistência.

     Saúde não é apenas a ausência de doenças, mas um estado completo de vigor, capacidade produtiva, bem estar físico e mental. Para serem perfeitamente saudáveis, os homens precisam de boa alimentação, higiene, habitação, educação e uma série de outros bens e costumes que lhes permitam sobreviver e progredir individual e socialmente.

     A saúde de um povo está diretamente ligada, portanto, ao seu grau de desenvolvimento. Inclusive, no Brasil, deve haver conscientização desse fato. O estado geral da saúde dos brasileiros reflete ainda o grau de nosso desenvolvimento, e em grande parte, as doenças ou formas de agressões mais graves e frequentes que ameaçam a saúde, são resultado da relação entre as populações humanas e o meio ambiente.

     O problema da saúde no Brasil está relacionado com a excessiva mobilidade e pobreza nutricional, gerada pelas tentativas mal organizadas do desenvolvimento econômico que é o principal  fator dos desajustes sociais.

     O baixo nível sanitário de nosso país pode demonstrar-se pela taxa de mortalidade infantil muito elevada. Não havendo condições básicas de higiene, a saúde facilmente fica comprometida. Em nosso país, poucos são servidos por água potável e esgoto sanitário. O Brasil apresenta um grande déficit médico; cerca de um para cada mil habitantes, e a sua distribuição é desproporcional, já que a maioria vive nas capitais dos estados, e há municípios que não contam com nenhum.

     O aspecto mais grave da saúde de nosso país é o das endemias, já que o Brasil não possui infraestrutura hospitalar ou médica para atender o ataque avassalador de certas epidemias.

     Não é nenhuma novidade afirmar que a população brasileira está totalmente carente na área da saúde; assim como na educacional, cultural e outras. O Brasil está muito atrasado, não tem uma política de saúde satisfatória e dá pouca importância às pesquisas. Obviamente, a solução para esses problemas é um maior investimento – em todos os sentidos – na área. Para começar o trabalho, no entanto, o governo deveria investir e valorizar mais os profissionais de medicina. Mas, valorizar esses profissionais significa um custo muito alto. É aí que entram as pesquisas. Um profissional não pode se aperfeiçoar se não tiver uma retaguarda.

     E viva o Brasil! Thim-thim, saúde!

 


Solitária solidão

   Bernardo Santos

 

     Ângela, professora de matemática estava sozinha, mas muito longe de sentir-se solitária, pois tinha todos os amigos que queria. Certa noite, por volta das oito horas, ouviu batidas à porta. Jurava não estar esperando ninguém, mas mesmo assim perguntou quem era. Do outro lado, uma voz rouca pronunciou um nome: “Cristina”. Viúva há pouco tempo e moradora do Edifício Solidariedade, dois andares acima ao de Ângela, que não tinha muita familiaridade com ela. Ao ser atendida, Cristina alegou estar muito triste, e que foi descendo andar por andar, batendo de porta em porta, na esperança de encontrar alguém em casa. Já havia passado em alguns apartamentos sem obter sucesso. Explicando o motivo da procura, perguntou se poderia entrar para conversar um pouco. Ângela, de forma delicada, porém franca, disse que estava muito ocupada, com muitas provas para serem corrigidas e entrega de notas marcadas para o dia seguinte. Cristina pediu desculpas pelo incomodo e retirou-se.

     Ângela fechou a porta orgulhosa de não se deixar amolar por alguém de quem provavelmente seria difícil de se livrar. Ao pegar a primeira prova para corrigir sobre o monte que ainda restava, ao ler o nome da aluna, um calafrio súbito lhe estremeceu o corpo. Coincidência ou não, a identificação Cristina surgia à sua frente, acompanhado pelo sobrenome Anunciação. A professora pareceu perder as forças para continuar a checar àquela prova, mas logo recuperou o bem estar e pode concluir a correção, atribuindo uma nota dez às questões abordadas. Colocou a prova de lado e passou para outra. Mas, aquele dez não a convenceu. Pareceu-lhe muito fácil, sem critério de análise. Recuou e refez a avaliação com mais cautela, observando com cuidado os detalhes, mas o dez era tão evidente, quanto à dispensa que fizera à Cristina.

     Cristina que havia descido dois andares subiu quatro chegando ao décimo; o último do prédio. Uma pequena porta situada na escada de emergência, com fechadura quebrada e mal conservada por descuido do síndico, permitiu sua passagem para o piso superior do edifício; local das instalações da caixa d’água, antena e pára-raios. Contemplando as estrelas em noite fria, viu-se maravilhada com a vista. A lua parecia estar bem mais próxima e bonita. As poucas pessoas transitando pelas calçadas olhadas por cima, se tornavam menores e insignificantes. Uma mistura de luzes quebrava a escuridão e os carros confundiam-se em suas características. As casas pareciam plantações, dando lugar à originalidade dos telhados; cada qual com seu desenho.

     Cristina ali sabe-se lá porque. Estática. Olhos vidrados na ponta do morro que se destacava ao longe. O mundo ao seu alcance. Mas, ela sentia-se triste e sozinha, sem companhia, sem família, sem amigos. O mundo, então, já não tinha tanto significado; o dinheiro sem valor, a vida sofrida e sem felicidade. Cristina fechou os olhos, abriu os braços e moveu-se para frente em desespero de decisão. Seus pés já não tocavam mais uma base firme no chão e seu corpo despencou livremente em queda na madrugada. Todas as janelas estavam fechadas, inclusive a do apartamento de Ângela, que a esta altura dormia em sono profundo.

     Duas vezes Ângela. Duas vezes Cristina.

     Ao amanhecer, os comentários não davam lugar para outro assunto, senão o suicídio de Cristina, que chocara aos moradores, pois ela havia perdido o marido há poucos dias. Os amigos de Ângela, da redondeza, não paravam de ligar para saber detalhes sobre o ocorrido em seu condomínio. Assustada, foi em busca de informações. Abalou-se ao saber que, por falta de tempo, a mulher a quem recusara alguns minutos de conversa na noite passada, agora estava morta. Muitos a criticaram, outros tentaram entender. Desesperada, lamentou-se em choro e soluços.

     Na escola, ao devolver as provas aos seus alunos, parabenizou Cristina da Anunciação pela nota dez. No mesmo instante, meditando, se autoavaliou com zero pela atitude de não ter conversado um pouco com a Cristina de seu prédio. No velório, o caixão lacrado, não deixava ver restos de fisionomia. A tristeza evidenciava-se nas pessoas. As rosas estavam presentes cumprindo sua segunda missão; deixando de alegrar a vida para enfeitar a morte.

     Ângela, neste dia não conseguiu dormir. Sentia-se agitada. Para acalmar, foi até a cozinha à procura de tomar água com açúcar. Ao passar pela sala, um clarão deslumbrante lentamente deixava visível o vulto de Cristina, sentada à mesa. Uma voz rouca vinda do além anunciou: “Eu não queria morrer. Só queria um pouco de atenção”.

     Dissipada a luz, Ângela impressionada esquecera o que ia fazer. Retornou ao quarto, e aflita, sentiu a necessidade de falar com alguém. Pegou a agenda telefônica e ligou para todos os amigos, mas não obteve sucesso. Ninguém atendeu. Triste em meio ao silêncio deu-se por conta que estava sozinha na mais ampla e longa noite de solidão.

                                 


                      Sorriso                      

Bernardo Santos

     Longe, muito longe desta cidade cinzenta, escura, existe um horizonte tão encantador;  construído e detalhado com pureza pela natureza.  Existe um mundo de felicidade.

     Olhe em seu jardim cheio de flores; não fique triste por ver folhas caídas pelo chão, imagine e sinta que seus dias são feitos por rosas douradas, jamais pense em olhar o céu e ver apenas nuvens.

     Esqueça definitivamente a sombra da escuridão e contemple as radiantes estrelas que emitem raios de luz, paz e tranquilidade.

     Sinta o prazer da vida num sorriso e não a tristeza de viver numa lágrima. Procure se encontrar e notar sua existência. Olhe em um espelho e reflita sua imagem, lembre-se que a idade não está em sua pessoa e sim em seu espírito; sua alma.

     Lembre-se dos amigos que lhe quer bem. Olhe para a Lua e lembrar-se-á que alguém lhe guarda dentro do coração; lembre-se que esse alguém somente vive para lhe fazer feliz. Lembre-se que esse alguém é o seu amor.

 

(Texto original: Smile, de Charles Chaplin (1889 -1977), com tradução e versão de Bernardo Santos, em comemoração ao aniversário de 100 anos do criador de “Carlitos”).

 
 
 

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