Faltava-me coragem, Pai

                                                        Bernardo Santos

 

     Pai; em uma busca pelos meus escritos não encontrei nenhuma poesia ou texto que defina a altura o que é ser pai. Não porque não tenha nada em mente para falar sobre este assunto; muito pelo contrário, pois também tenho esta experiência, mas talvez porque na verdade nunca tive coragem. Sim, coragem. Já havia escrito poesia que criticava o ato um pouco exagerado quando você bebia, nada contra o porre, mas porque me preocupava com sua saúde. Encontrei também uma que dizia que envelheceríamos juntos e que ainda mais velha seria a nossa amizade. Hoje estou um pouco envelhecido e sinto não poder compartilhar mais esta nossa antiga e eterna amizade, pois você se foi e me deixou aqui para continuar a trilhar o meu caminho, tentar realizar meus sonhos e acima de tudo cumprir a minha missão.

     Assim estou escrevendo este pequeno e humilde texto, sem retórica, com pouco brilhantismo, que não foi publicado e nem laureado, mas que traduz o único e mais importante prêmio que ganhei na vida: A oportunidade de ter um pai como você, que me adotou, criou e me fez crescer consciente de que tudo o que fez foi em prol da minha felicidade. E neste momento eu continuo sem coragem.

      Infância  sem  sofrimento  devo  a   ti,    que  me  tirou  da  pobreza   e  me acolheu como filho. Adolescência sem grandes transtornos longe de drogas, bebidas, cigarros  e  com uma  leve pitada  de rebeldia também devo  a ti,  e enfim, de  criança  a  homem  adulto  pude  acompanhar  seus  passos  e   ter liberdade de seguir os meus, portanto só tenho a agradecer pela confiança, pela  dedicação,  pelo  amor  que  me deu.    Estou  certo  de  que   meu    pai biológico, tanto como eu só teve orgulho de poder contar com você para ser o verdadeiro pai deste filho, que muito te amou.  Agora sim criei coragem  de dizer   que  sinto  muita saudade  dos  seus   sessenta   minutos   de   risadas contagiantes e não consigo admitir ter perdido este riso para um  câncer que o tirou de mim. Queria poder ainda pegar em sua mão e caminharmos juntos alegres e sorridentes por qualquer caminho. Quem sabe, amanhã...

 


                   Flecha em chamas corta arco-íris

 no céu americano

                                                        Bernardo Santos


      O que sabemos das culturas indígenas? O que nos foi contado pelos filmes de faroeste talvez seja a melhor resposta. E das culturas africanas o que sabemos? O que nos ensinou o professor Tarzan, com certeza.

     Mas os índios, com o incansável lema dos americanos de que para resolver o  grande problema indígena é preciso que os índios deixem de ser índios. Apaga-los do mapa ou apagar-lhes a alma, continuam sofrendo, vítimas do preconceito e do racismo; com isso, uma terça parte de suas selvas foram aniquiladas e milhares deles mortos por ordem e progresso. E se a maioria acha que toda a sua cultura resume-se ao que os filmes de faroeste nos mostram e ao que o professor Tarzan nos ensinou, mesmo sem nunca ter pisado na África, provavelmente ainda tem muito a aprender.

     Apenas  para  elucidar  como  os  índios  são  renegados,    uma pesquisa realizada por Eduardo Galeano, publicada na Revista Nossa América, define alguns pensamentos e ideias acerca do que representa os índios no contexto socioeconômico  e  cultural  na   visão  dos  homens brancos  intelectuais   do universo americano.

     Os fragmentos apresentados de acordo com o Ministério da Saúde podem fazer mal para os seus olhos durante a leitura, mas para a história universal, que continua indiferente, e negando a identidade dos índios tirando-lhes o direito de ser, proibindo-lhes o direito de viver a seus modos, maneiras e costumes, revela-nos uma América cega, ou uma América que finge não querer enxergar.

 ___Cristóvão Colombo escreveu em seu diário que ele queria levar alguns índios à Espanha para aprenderem a falar. Um índio Mixteco foi considerado retardado mental porque não falava corretamente a língua castelhana”.

 ___ O Paraguai fala Guarani – caso único na história universal – e no entanto, a maioria dos paraguaios opina, que os que não entendem espanhol são como animais”.

 ___ De cada dois peruanos, um é índio, e a Constituição do Peru diz que o Quéchua é um idioma tão oficial como o espanhol, porém a realidade não escuta. O Peru trata os índios como a África do Sul trato os negros”.

 ___ Os funcionários do Registro Civil de Buenos Airies negaram-se a registrar o nascimento de um menino. Os pais, indígenas da província de Jujuy, queriam que seu filho chamasse Quori Wamancha, um nome de sua língua. Não foi aceito por tratar-se de nome estrangeiro”.

 ___ “Henry Pratt, coronel norte-americano, aconselhava: Matar o índio é salvar o homem”.

 ___ Mário Vargas Llosa, escritor, explica: Não há outro remédio a não ser modernizar os índios, mesmo que seja preciso sacrificar suas culturas para salva-los da fome e miséria”.

 ___ Gabriel René, historiador, acreditava que os índios eram asnos, que geram mulos quando cruzados com raça branca”.

 ___  Ricardo Palma, peruano, escreveu que os índios são uma raça abjeta e degenerada”.

 ___ Domingo Faustino, argentino: São mais indômitos, animais mais teimosos, menos aptos para a civilização e assimilação europeia”.

 ___ “Maurício Rangel Reis, ministro do interior do Brasil: O problema indígena ficará completamente solucionado no final do séc. XX; todos os índios estarão devidamente integrados na sociedade brasileira, e não serão mais índios. A Funai irá se encarregar de civiliza-los, ou seja, de desaparece-los”.

     Este pequena retrospectiva desde a colonização das Américas até os dias atuais é prova de que não houve grande transformação nesta relação branco e índio. Cada qual procura defender suas ideias, conceitos, mitos e crenças que melhor se adaptem às suas necessidades e interesses. Não se pode rotular a cultura indígena como decadente, uma vez que a cultura branca também caminha num processo de decadência.

 (Texto baseado na pesquisa de Eduardo Galeano in Revista Nossa América, Edição Março/Abril 1992, pgs. 56 a 67).

 
 
 

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