Ave-maria

Bernardo Santos

 

     Mais um ano se finda. Um novo ano desperta, seis horas, Ave-maria!

   Tantas amarguras guardadas, pensamentos sem sentidos, lágrimas incontroláveis. O que queremos? Que o mundo andasse perfeitamente sem sofrimentos e fosse um paraíso em flor. É Isto? Infelizmente nos enganamos e esquecemos que somos humanos e que a vida é um livro de páginas alternadas e dentre elas estão contidas mais histórias tristes que alegres; mas isto não significa o fim. Somos capazes de poder suportar os momentos difíceis, e então porque não enxugar as mágoas e apagá-las levemente com um sorriso?

     É hora de ser forte, deixar a fraqueza de lado e reagir contra as feridas. O tempo ainda é nosso amigo e ele nos ajudará a reanimar-se.

     Vejamos o lado positivo das coisas e vamos nos agarrar à satisfação de estar fazendo parte da vida e ver que ela não é tão ruim assim, que nós fazemos dela um panorama infernal, quando ela quer apenas o nosso bem.

     Vivemos todos no mesmo meio, enfrentando obstáculos, injustiças, decepções, desamores e guerras que nos conduzem ao nosso próprio fim; mas de que adianta chorar, gritar, espernear, reclamar... Nada disso está correto. O que reflete no espelho é nossa imagem; portanto somos culpados pelos nossos erros, pelos transtornos e aborrecimentos. Sabe o porquê? Porque é exatamente assim. O ser humano exprime o fulgor de representar o símbolo da vida, mas vive para morrer, cresce para sofrer e tudo porque quer...

     Não fiquemos de cabeça baixa, pelo menos neste pequeno momento de reflexão e meditação: Vamos pensar que amanhã será diferente; um novo dia surgirá perfeito, sem mágoas, sem lágrimas e pacificamente passaremos pela tarde e adentraremos pela noite pedindo em oração que nos devolva a paz interior que covardemente foi roubada e tirada sem a nossa permissão e veremos uma nova fisionomia brotar no mesmo espelho, cuja coragem de olhar não se permitia.

    A partir de então, poderemos perceber que todos os dias são santificados e que o responsável por esta pureza somos nós, pois todo dia é dia de Ave-maria!

     Basta apenas nos perdoarmos, querer ser, poder e fazer o bem...

     Somente assim, teremos melhores dias.                            

 


A Primeira Carta

Bernardo Santos

 

     Foram tantas as emoções que palavra nenhuma conseguiria traduzir. Apenas o sorriso em seu rosto, e às vezes as gotas lacrimais, que nasciam em seus olhos e morriam nos lábios modificando o gosto do beijo, talvez com sacrifício chegariam a alguma explicação.

     Linhas geográficas representando a distancia como se estivessem tão perto; perto de uma grande verdade, a saudade do tempo em que estávamos juntos trocando diálogos de sonhos imaginários em que sonhávamos acordados coisas doidas, mas muito menos doido é algo que traduz um tempo que passou. Você não seria menos você se pudesse reviver este tempo, o mais lindo que junto passamos.

     Agora, este pressentimento de estarmos um longe do outro; de que apenas os corações podem se comunicar através de sentimentos, e as cabeças pelo pensamento, nada terá importância se não voltarmos a ser o que realmente somos. Devemos lembrar de nosso primeiro olhar, primeiro encontro, primeiro amor; enfim, amor puro, passivo, compreensível, carinhoso e afetuoso.

     Nossos caminhos estão distantes perdidos entre antigos amores; lindos, serenos, calmos e que agora nos afligem e nos deixam impacientes.

     As vinte e quatro horas de solidão resumem-se à espera e a quebra desta separação que apenas nos faz sofrer e elucidar momentos.

     Quero  dizer  o  quão  feliz  fiquei  ao  receber  sua  carta de reconciliação, entregue-me   pelo  pombo-correio  sentimental;   pois  o  amor  consiste   na felicidade de dois seres e nada melhor que gritar ao mundo inteiro que estes seres estão contidos nas dicções pronominais eu e você.


(Este texto é parte integrante do Livro: O míssil humano, inédito.)



A poesia nos dias de hoje

Bernardo Santos

 

     Ensaístas, filósofos e estudiosos da expressão literária registraram e continuam registrando teorias e conceitos acerca da essência da poesia.

    Platão a classificou entre as artes representativas, artes plásticas, ao lado da dança e do teatro, Do filósofo grego aos modernos estudos de alguns ensaístas, há uma longa escala interpretativa. Da Clássica, passando pela Renascentista, Romântica, até chegar à Moderna; a poesia sofreu e vem sofrendo transformações tal qual a “Pedra da Transmutação”.

     Mathew Prior, na concepção de seu pensamento, dizia: As comparações (em literatura) são como as canções de amor: dizem muito, mas não provam nada.

     Folheando livros, revistas e jornais, deparei com o aqui e agora da poesia. Daria para escrever inúmeras páginas a respeito das contradições da linguagem poética; porém, procurei selecionar aquelas que, a meu ver, se inserem no contexto da atual realidade vivida pela poesia; uma arte milenar, mas que se faz necessária.

     Décio Pignatari,  em Comunicação  Poética,  diz que a poesia é um corpo estranho nas  artes  da  palavra.  É a  menos  consumida  de  todas  as artes, embora   pareça   ser   a   mais   praticada   (muitas  vezes,  às  escondidas). Nogueira Moutinho afirma em seu artigo Como apreciar Poesia, que ela é  a forma mais elaborada e sutil de uma língua, só emerge em níveis  avançados de cultura. João Cabral de Melo Neto,   que recebeu  o  prêmio  Neustad   da Universidade  Oklahoma (EUA), declarou à Folha de S. Paulo que a poesia é muito  mais  ampla  do  que  se  pensa:   as  vertentes  históricas,   didáticas, épicas,  narrativas  e  críticas  foram  abandonadas  pela  poesia em favor da expressão pessoal de um certo estado de espírito.

 

     Estas três visões antagônicas exemplificam e ilustram o panorama do que se pensa e se tem pensado a mercê da poesia nos dias de hoje. Se o poeta é aquele que faz, e a poesia é a ação de fazer algo, nada poderia ser diferente: fazer/fazer/fazer.

     Então, como desvinculá-la do passado, se ela busca as raízes de um todo, de um tudo, do existir? Como dizer que a literatura e a filosofia são suas maiores inimigas, se ela é o sentimento profundo do inexprimível e o bálsamo harmonioso da alma?

     Moutinho diz que não precisamos criar uma poesia para provar que ela é necessária, pois dispomos de uma tradição poética respeitável. Já Pignatari pensa que não é porque houve um Pelé que vamos deixar de jogar futebol; não é porque há uma Gal que vamos deixar de cantar e João Cabral indaga: Não estaria o verdadeiro lirismo de nosso tempo no que se chama canção popular?

     A poesia está aí, como sempre esteve: desde o nascer de um animal até seu morrer; do surgir do sol, ao seu pôr; do crescimento de um vegetal, ao cair de suas folhas secas voando, distanciando de sua origem, levadas ao longe pelo vento, para onde ninguém sabe. Não sei porque defini-la como arte de anticonsumo, pois ela é consumida diariamente em cada movimento do ser vivo, até mesmo na inanimação dos objetos; mas parece que ninguém percebe, ou melhor, finge não perceber.

     Desta forma, entende-se que a linguagem poética é um jogo de palavras, como em todo jogo, há regras para serem aprendidas; só que o bom jogador é aquele que não segue as regras, mas que cria um hábito, um estilo próprio. Assim é a poesia: um emaranhado de peças que se encaixam e que todos jogam à sua maneira, mesmo que às escondidas.

A poesia ganhou sua liberdade, perdeu o caráter narrativo, impresso e conquistou movimentos, sons. Será que Platão não estava certo?

     É preciso evitar os extremos. Estímulo não significa insistência. Não adianta perseguir, cobrar obstinadamente. O segredo é deixar a criatividade e a sensibilidade falarem mais alto.

        A poesia é necessária!

  (Texto publicado no Jornal São Judas-USJT,  Nov/92 – SP).

 
 
 

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