Sombra na luz do dia

Bernardo Santos


Brilha o sol

e a luz clareia

toda a face da terra

iluminando o longo caminho da vida

para um dia de rotina.

Desce a noite

as chamas terminam

e escurecem o infinito.

A escuridão obstrui o movimento

trazendo sombras

que se foram para não voltar,

deixando marcas

para o que vai renascer.

Morre a formosura

e a tristeza inunda a alma

deixando no pensamento

inesquecíveis felicidades;

surge o sonho na mente

trazendo de volta

toda a alegria

e num piscar de olhos

nasce mais um dia

para tudo recomeçar.


Publicado na Revista Notti-Sears Jul/Ago 1981



     Sonho infantil

        Bernardo Santos

 

Cabelos loiros

menininho,menininho...

De pé no chão

segue sozinho

de calça curta

e olhos pequenos

mora na rua ladrilhada

na casa molhada

não tem nome

e nem idade

sonha ser rei

mesmo sendo príncipe;

príncipe sem castelo.



Sombra de um grande homem

Bernardo Santos

 

O entardecer trouxe consigo

gotas de mágoa

no pingar da chuva

que transformou-se em procela.

 

E no meio do outeiro

formou-se um reduto

que transbordou

de água cristalina.

 

A terra prosápia de sua beleza

e tamanho esplendor

apagou as luzes

de seu semblante.

 

O mar sisudo

avançou para a praia

com seu canto aromático

ao encontro das areias.

 

Um vozeirão surgiu nos céus

ao som das harpas dos anjos

que disseminaram pelo campo

abrindo os olhos do mundo.

 

Todos olharam com hipocrisia

a luz da estrela

que formalizada ficou

ao radiar o palco.

 

E ela se apagou

deixando sombra

de um grande homem

que voltará.



Soneto à canção

 Bernardo Santos

 

 Canto a tristeza

choro a alegria

lembro de pensar

não penso em lembrar.

 

Bela recordação me trás a música

quando perdido em solidão

entrega-se um corpo ferido

aos espinhos do amor em pranto.

 

E lembrarás momentos vãos

marcados em sim, em não

lentas músicas, lentas horas.

 

Tantas canções sensibilizando os ouvidos

tantas dores profundas no peito

muitas lágrimas saindo dos olhos.     



Sala vazia

Bernardo Santos


Cadeiras espalhadas

abóbora na cor

todas paradas

desiguais na forma

mas iguais na dor.

Mesa branca

no canto

sozinha

vazia, sem vida

na festa sem multidão.

E uma pequena partícula

de carne e osso

osso duro de roer

sem fome

sem nome

sem meta!



Seu aniversário

 

Bernardo Santos

 

 

Hoje,

dia do seu aniversário,

mais um ano de vida

você completa.

Um ano que se foi

para nunca mais voltar,

mas que estará presente

em todos os dias

de sua rotina.

Você,

que vive no mato

na selva

na relva

que planta e colhe

percorre o caminho

sem se cansar.

Você,

que luta e batalha

constrói o futuro

e  vence o presente

sem se importar

com o passado.

Hoje,

dia do seu aniversario

como porta-voz do parabéns

cumprimento-te

desejando felicidades

glória, sucesso, tudo de bom

e uma longa caminhada

na trajetória da vida.

 

 


Soneto à descoberta do índio

Bernardo Santos

 

Vem mãe vivente Guaracy

proteger teu povo sofrido

nas tabas inseguras

prontas a desmoronar.

 

Traga Rudá de volta

para reinar na terra dos homens

e plantar sua semente

extinta no jardim dos corações.

 

Venha levar o saci embora

sua perna desordeira

sua ferida cobiçada

 

e com ele me explique a lenda

que tanto me envergonha falar

do índio, esse pobre desconhecido.

 


Sem aversão

Bernardo Santos

 

Laço forte

de aço.

Coisas do rir

e do chorar:

Lama negra

a negra ama;

seja qual for a cor

seja de onde for

negro volta!

O fruto vingará

o futuro

um gelo

que refresca

e desfaz

o ontem no amanhã.

O filho do filho

é o pai,

o uso está no abuso

o tempo apaga as desilusões

o tempo devolve as ilusões

negro volta!       

 


Soneto ao Líbano

Bernardo Santos

 

Uma esperança,

apenas uma leve esperança.

Pequena fuga da coragem

que parte com o medo e a dor.

 

Como seria belo ver o sol

e triste se não houvesse chuva

a luz distante não atingiria

vida sem água não existiria.

 

E tão frágil seria o pensamento

que dele pouca coisa restaria

talvez não existisse a palavra guerra.

 

Infelizmente não há paz e só canhões

ativados pelo desejo da ambição

que espalham no chão marcas da existência.

 


Só uma palavra

Bernardo Santos

 

“Amor é só uma palavra”.

Título de um livro

leitura de momento

palavra de encanto

frase de vida

às vezes, ensinamento.

 

É só uma palavra

de sentimento

que machuca sem doer

e que dói sem machucar.

 

Uma palavra

que gera medo

insegurança

luta e sacrifício.

 

Só uma palavra

que dá origem a tantas outras

“Amor”.                               

 


Sombra fugitiva da verdade

Bernardo Santos

 

Fuga!

Uma covardia impulsa

que quer sim ou não

buscamos.

Farsa!

Um mundo de ilusão

em face do perigo

e a fantasia é nosso traje.

Poesia!

Que mais poderia ser?

É a eterna voz da liberdade

que busca a paz.

 

Publicada no livro: Poeira de estrelas e sonhos, 2011.

 


Selvilização

Bernardo Santos

 

Selva

Selvagem.

Matas

rios

vales

montanhas

verde

azul

claro

e tudo.

 

Flecha

Cacique

índios

animais...

 

Homem!

Homem branco?

Máquinas

civilização

progresso

arma e fogo

amarelo

preto

escuro

e nada.

                        

Publicada no Livro: Poeira de estrelas e sonhos, 2011.

 


Semeadura

Bernardo Santos

 

Vou semear letras

para formar palavras.

Vou plantar versos

para colher poesias!

 


Sobra

Bernardo Santos

 

Não foram as chaves de são Pedro

que caíram no chão;

ao resgatá-las

dissipou-se a neblina

e brotou à luz

um maravilhoso panorama:

sobrou um resto de esperança

e um pedaço do caule da última flor

guardada dentro de um tubo de ensaio.

 

 Sujeira no chão

Bernardo Santos

 

Esqueçam o nosso país

vivamente impressionado

com o seu desenvolvimento

e enorme futuro potencial.

 

Lembrem-se da população

que nele habita

e aos poucos morrem

no desespero do presente.

 

Procurem a pureza da paz

pois aquele que a encontrar

construirá o reino do amor

e destruirá o campo da guerra.

Corram da violência

e fujam do egoísmo

para uma estrada limpa

porque este chão ainda é sujo.

 

 
 

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