Recados molhados

Bernardo Santos

 

Sonolenta madrugada

ruas desertas

sombras da noite

minhas tristezas

tuas lembranças

nossos sonhos

naufragados no barco do amor

foram-se embora com a maré.

Culpa sua?

Culpa minha?

Dos dois.

As gaivotas viram

os bilhetinhos de papel

voarem livres pela areia.

Um dia, talvez

as águas da liberdade

os transformem em sal

numa praia qualquer.


Publicado no Livro: Poeira de estrelas e sonhos, 2011.



Racismo

Bernardo Santos


Somos iguais nos dedos da mão,                                                 

no entanto, somos diferentes.

Polegar

indicador

médio

anular

mínimo.

Todos ligados à palma da mão;

articulam-se seguros

por tendões fortes.

Branco

preto

amarelo

indígena.

Todos ligados à humanidade;

articulam-se inseguros

por caminhos fracos.

Muitos têm pavor,

raiva do hoje

e ódio do amanhã.

Criam preconceitos irreais

que não deveriam existir.

São falsas testemunhas

da própria existência

e cultivam sentimentos egoístas,

um orgulho besta.

Assim como os dedos

inseparáveis da mão

os homens deveriam ser unidos

sem racismo.

Seja rico ou pobre,

bonito, feio, alto, baixo,

gordo, magro, novo ou velho;

não importa…

Todos têm o direito de viver aqui

e em acolá, livres

de corações abertos

na casa onde cobre o grão

das separações.



Recordações

Bernardo Santos


Quero levar-te;

sim, quero.

Levar-te

seja aonde for:

na flor

na dor

no amor.

Quero levar-te

para as nuvens

e cair com você

em meios aos pingos da chuva.

Levar-te-ei ao infinito,

ao definido, à linha do horizonte.

Quero você

pertinho, juntinho, unida a mim.

Você casinha branca

fogão à lenha

fogo e brasa.

Terra vermelha

poeira

calor

cultivo e abrigo.

Quero levar-te à eternidade.

Levar-te-ei em recordação

presença e aroma

perfume

luzeiro

estrelas

sol

cachoeira

água da represa.

Quero levar-te

em minha memória

doce lembrança

que será sempre lembrada.



Retrato

Bernardo Santos

 

Clique

fixou a imagem.

Pequenas peças

divididas num azul-marinho

contraste de branco polar

cobrindo um corpo

que a nudez

aos olhos proibidos

numa pose informal

graciosa.

Em que praia estaria a criatura

sensibilizando a passarela de areia

e muitas máquinas fotográficas humanas?

Quisera meus olhos saber

ao roubar-te de um álbum qualquer...

E o bronzeado da pele

sobre os efeitos da queimadura do sol

fazia-lhe mais bonita

e levei você embora comigo

sonhando um dia

revelar-te no escuro,

mas tão clara ficou a fotografia

sob o aspecto de um fundo cor-de-rosa.


Esta Poesia é parte integrante do Livro: Poeira de estrelas e sonhos.



Remador do além

Bernardo Santos

 

Parte a pequena embarcação

movida pelo suor

dos braços cansados

que o voga-avante movimenta

com a haste de madeira

achatada num dos lados.

Avançando para as profundezas

em meio ao tijucal

com sua prosápia vã

protegido pelas nove musas

no caminho fluvial.

Carente e solitário

navega nas águas tranquilas

abismando-se ao longe

numa eterna paisagem.



Recordações da infância

Bernardo Santos

 

A infância

pura criança

momentos vividos.

Como é lindo

os pássaros cantando

a brisa soprando no rosto

as tranças da menina balançando.

Sonho de menino

esperança

apenas lembranças.

O correr livre pelos campos

inocência no pensar

timidez no falar.

Um passado que se foi,

nada ficou;

esvaiu-se como fumaça

perdendo-se no infinito.



Recado de índio

Bernardo Santos

 

“Isto é coisa de índio...”.

Diz o homem branco

“... Pra que dar ouvidos?”.

 

O índio não tem empresas

não cobra metas, cotas.

E o branco ainda diz:

“Quem tem chefe é índio!”.

Ele não precisa roubar

nem violentar crianças indefesas.

São unidos puramente

e lutam por um objetivo: A paz.

 

Mas que índio é este,

que se atreve a me chamar de cara pálida?

Tenho de tudo e do bom

dinheiro não me falta

luxo, de antemão.

Sou até candidato à constituição!

 

Quem é este índio? Um louco, atrevido.

Talvez um vadio que habita minha mata

e nem sequer paga imposto.

 

Este índio é um ser humano injustiçado

e muito menos reconhecido.           

“Coisa de branco...”.                  

Diz o índio.                               

 

“E agora ele só tem o dia 19 de abril...”.



Rimas passadas

Bernardo Santos

 

Percorre muitos caminhos

de olhos abertos para ver,

procura e não encontra

se perde e não vê.

Avante na estrada

sem voz, calada

braços abertos

fortes e seguros

como uma asa a voar.

Chama alguém no pensamento

pra modo de consolar

e a poesia que se perde

em versos livres a rimar

(sem poder ter rima)

não tem ouvidos a escutar

e cegamente faz versinhos

para um ser inexistente,

chora sem lágrimas,

pois poesia não é.



Reflexão de uma prostituta

Bernardo Santos


Gira e volta

volta e gira.

Perde-se, surpreende-se,

deixando “eus” que não existem.

Ao sair, se troca e sorri.

Em novas roupas

sente-se envolvente na vida,

mas o turbilhão ainda presente

e o desespero a continuar.

Refeita, observa e aprende

atenta ao mundo chamar;

danar-se na primeira esquina

e um novo “eu” ao encontro buscar;

dentre tantas, uma nova partida!


Poesia publicada no livro Poeira de estrelas e sonhos - 2011



Rodopiando

Bernardo Santos

 

A vida gira

e dá voltas tantas

eu vi.

A Terra então é nada

pois gira no mundo

como pião

furando o buraco

de seu próprio fim.



Remador do além

Bernardo Santos

 

Parte a pequena embarcação

movida pelo suor

dos braços cansados

que o voga-avante movimenta

com a haste de madeira

achatada num dos lados.

Avançando para as profundezas

em meio ao tijucal

com sua prosápia vã

protegido pelas nove musas

No caminho fluvial.

Carente e solidário

navega nas águas tranquilas

abismando-se ao longe

numa eterna paisagem.




Rua Halfed

Bernardo Santos

 

Na Halfed os poetas se encontram

para tomar um chope e brindar à arte.

Tem uma discoteca no passeio

à espera de um comprador para o disco velho;

alguns, muitas vezes, raridade,

na ânsia de que alguém ouça alguma música antiga

e mate a saudade do tempo

ou resgate uma certa lembrança.

Hippies, ciganos e camelôs se misturam

iluminados pelas cabeças irradiantes

dos postes de aço vermelho

espalhados pelo calçadão.

Na Halfed os namorados se beijam,

os amantes se encontram,

 e os casados passeiam;

todos andando de mãos dadas

entre os coloridos prédios que se contrastam

entre arquitetura antiga e moderna nas fachadas.

Na Halfed o encanto de encantar o conto

das belas meninas desfilando na passarela juiz-forana

e que desaparecem no beco do cineteatro

ou pelas diversas passagens das galerias.

Bijuterias tomam forma:

Pulseiras, colares, Pierces, brincos e anéis

ganham pulsos, pescoços, umbigos, orelhas e dedos;

enfeitando a vida tal como ela é,

mágica, linda e frágil.

Na Halfed, no calçadão, no coração do centro;

respira-se, sua e inspira emoção.



Rio Paraitinga

Bernardo Santos


As águas tranqüilas correm
pelo rio afora
entre a imensidão da paisagem
construída pela beleza
dentro de um pequeno vale
no encanto que a natureza formou.
Na vastidão profunda
banha o sereno
contemplado pelo orvalho
e um vento frio
que vem da montanha
trazendo consigo
um segredo
quebrantando o orgulho e avareza.
Rio Paraitinga formosura glorificada;
cálice do amor
consagre teu povo
alimentando o pescador.



Poesia escrita em São Luiz do Paraitinga - SP, parte integrante do Livro: Paraitinga, inédito.


 
 

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