Recordações

Bernardo Santos

 

Quero levar-te;

sim, quero.

Levar-te

seja aonde for

na flor

na dor

no amor.

Quero levar-te

para as nuvens

e cair com você

em meio aos pingos da chuva.

Levarei-te ao infinito

ao definido, à linha do horizonte.

Quero você

pertinho; juntinho, unida a mim.

Você casinha branca

fogão a lenha

fogo e brasa.

Cabelos loiros

olhos verdes

terra vermelha

poeira

calor

cultivo e abrigo.

Quero levar-te a eternidade.

Levarei-te doce recordação

presença e aroma

perfume

luzeiro

estrelas

sol

cachoeira

água da represa.

Quero levar-te

em minha memória

pobre lembrança

que será sempre lembrada.



Rodopiando

Bernardo Santos

 

A vida gira

e dá voltas tantas

eu vi.

A Terra então é nada

pois gira no mundo

como pião

furando o buraco

de seu próprio fim.



Remador do além

Bernardo Santos

 

Parte a pequena embarcação

movida pelo suor

dos braços cansados

que o voga-avante movimenta

com a haste de madeira

achatada num dos lados.

Avançando para as profundezas

em meio ao tijucal

com sua prosápia vã

protegido pelas nove musas

No caminho fluvial.

Carente e solidário

navega nas águas tranquilas

abismando-se ao longe

numa eterna paisagem.



Recordações da infância

Bernardo Santos

 

A infância

pura criança

momentos vividos.

Como é lindo

os pássaros cantando

a brisa soprando no rosto

as tranças da menina balançando.

Sonho de menino

esperança

apenas lembranças.

O correr livre pelos campos

inocência no pensar

timidez no falar.

Um passado que se foi,

nada ficou;

esvaiu-se como fumaça

perdendo-se no infinito.



Racismo

Bernardo Santos

 

Somos todos iguais aos dedos da mão;

no entanto,

somos diferentes.

Polegar

indicador

médio

anular

mínimo.

Todos ligados à palma da mão;

articulam seguros

por tendões fortes.

Preto

Branco

amarelo

mulato.

Todos ligados à humanidade;

Articulam inseguros

por caminhos fracos.

Olhamos com pavor

raiva do hoje

e ódio do amanhã.

Criamos preconceitos irreais

que existem,

mas que não deveriam existir.

Somos falsas testemunhas

de nossa própria existência

e vivemos dentro

de um orgulho besta,

onde o rico é rico

o pobre é pobre.

Assim como os dedos

inseparáveis da mão

teríamos que ser unidos

sem diferenciações ou críticas

sem racionalismo,

pois onde o branco mora

preto também mora;

seja rico ou pobre

feio, bonito; não importa...

Gente como a gente

tem o direito de viver aqui

e em acolá,

livres

de corações abertos

na casa que cobre o grão

das separações.



Rimas de dor

Bernardo Santos

 

Quem sou eu

se não um simples poeta

tentando conservar o jardim da vida.

Planto amor

rego com ânsia e desejo

de colher felicidade;

mas uma nuvem negra

trás pessoas frias

que por cima dele pisam sem dó

destruindo-o por prazer maligno.

Quando volto ao plantio

vejo que a semente  está rompida,

esmagada, destruída.

Fico triste com tanta desgraça

ao pensar que na vida tudo é passageiro

e a pobre semente ali perdida

parece desapontada também comigo.

 


Rua Halfed

Bernardo Santos

 

Na Halfed os poetas se encontram

para tomar um chope e brindar à arte.

Tem uma discoteca no passeio

à espera de um comprador para o disco velho;

alguns, muitas vezes, raridade,

na ânsia de que alguém ouça alguma música antiga

e mate a saudade do tempo

ou resgate uma certa lembrança.

Hippies, ciganos e camelôs se misturam

iluminados pelas cabeças irradiantes

dos postes de aço vermelho

espalhados pelo calçadão.

Na Halfed os namorados se beijam,

os amantes se encontram,

 e os casados passeiam;

todos andando de mãos dadas

entre os coloridos prédios que se contrastam

entre arquitetura antiga e moderna nas fachadas.

Na Halfed o encanto de encantar o conto

das belas meninas desfilando na passarela juiz-forana

e que desaparecem no beco do cineteatro

ou pelas diversas passagens das galerias.

Bijuterias tomam forma:

Pulseiras, colares, Pierces, brincos e anéis

ganham pulsos, pescoços, umbigos, orelhas e dedos;

enfeitando a vida tal como ela é,

mágica, linda e frágil.

Na Halfed, no calçadão, no coração do centro;

respira-se, sua e inspira emoção.

 

Rio Paraitinga

Bernardo Santos


As águas tranqüilas correm
pelo rio afora
entre a imensidão da paisagem
construída pela beleza
dentro de um pequeno vale
no encanto que a natureza formou.
Na vastidão profunda
banha o sereno
contemplado pelo orvalho
e um vento frio
que vem da montanha
trazendo consigo
um segredo
quebrantando o orgulho e avareza.
Rio Paraitinga formosura glorificada;
cálice do amor
consagre teu povo
alimentando o pescador.



Poesia escrita em São Luiz do Paraitinga - SP, parte integrante do Livro: Paraitinga, inédito.



Retrato

Bernardo Santos

 

Clique

fixou a imagem.

Pequenas peças

divididas num azul-marinho

contraste de branco polar

cobrindo um corpo

que a nudez

aos olhos proibidos

numa pose informal

graciosa.

Em que praia estaria a criatura

sensibilizando a passarela de areia

e muitas máquinas fotográficas humanas?

Quisera meus olhos saber

ao roubar-te de um álbum qualquer...

E o bronzeado da pele

sobre os efeitos da queimadura do sol

fazia-lhe mais bonita

e levei você embora comigo

sonhando um dia

revelar-te no escuro,

mas tão clara ficou a fotografia

sob o aspecto de um fundo cor-de-rosa.


Esta Poesia é parte integrante do Livro: Poeira de estrelas e sonhos.



Recado de índio

Bernardo Santos

 

“Isto é coisa de índio...”.

Diz o homem branco

“... Pra que dar ouvidos?”.

 

O índio não tem empresas

não cobra metas, cotas.

E o branco ainda diz:

“Quem tem chefe é índio!”.

Ele não precisa roubar

nem violentar crianças indefesas.

São unidos puramente

e lutam por um objetivo: A paz.

 

Mas que índio é este,

que se atreve a me chamar de cara pálida?

Tenho de tudo e do bom

dinheiro não me falta

luxo, de antemão.

Sou até candidato à constituição!

 

Quem é este índio? Um louco, atrevido.

Talvez um vadio que habita minha mata

e nem sequer paga imposto.

 

Este índio é um ser humano injustiçado

e muito menos reconhecido.           

“Coisa de branco...”.                  

Diz o índio.                               

 

“E agora ele só tem o dia 19 de abril...”.

 
 
 

© 2010/17 - Bernardo Santos - Todos os direitos reservados

Lay-out e Hospedagem: Uol Host

Imagens de Abertura das Páginas: Licença Royalt-Free

Fotos: Arquivo Pessoal e Divulgação



  Site Map