Menina-morena

Bernardo Santos

 

No verde-azul mata a sonhar

a imaginação da fonte perdida

a emoção da água encontrada.

E rola a lágrima cristalina

de dois olhos enfeitiçados

sobre os véus desta conquista

que passa a ser ciúmes.

Bate tão forte, tão brusco

com dor, disparado;

vai e vem

e fibra por fibra

renova-se o coração.

Amanhã o sol nascerá

para colorir a aurora

e beijar as flores,

pois a tarde secou o mar

deixando os veleiros sem vida

e o céu sem gaivotas.

Os olhos à procura

da branca areia da praia

buscando o brilho de aço das estrelas.

As mãos sentindo a luz fria da lua,

querendo acariciar o veludo do teu rosto.

Os lábios clamando por um beijo.

Sentimentos,

alegres, tristes, apaixonados;

quase sempre só de amor.

Quando acordar

contarei segredos do riacho

e as luzes se acenderão

porque a esperança é luminosa.

Menina-morena,

faça da poesia o seu ser

e deste ser,

o eterno agasalho para sua alma.

Menina-morena,

perdoe este sonhar!

Que este sonho te acorde

e se realize com amor.

Menina-morena

menina

morena.


Publicado no Livro: Poeira de estrelas e sonhos, 2011.



Minha companheira Polly

 Bernardo Santos

 

Volto de viagem a trabalho

e ao buzinar, ela faz uma festa:

Salta e pula de alegria,

Inclina-se em posição de que gosta de mim,

aguardando o cafuné.

Faz-me o tradicional narizinho

e corre em busca da bolinha na meia,

esperando que eu a lance no corredor

e em disparada possa busca-la.

É hora de brincar...

Aos finais de semana

O passeio pela rua é comigo;

ao assistir TV, no sofá fica comigo;

No computador, se estou a digitar

é debaixo da escrivaninha que gosta de ficar.

No almoço ou jantar, sob a mesa espera um agrado.

Ao dormir, somos três:

Eu, a esposa e ela, no meio.

Ao toque de despertar,

a mordiscada no dedão do pé é certeira;

anunciando o momento de levantar-se.

E ela faz uma nova festa:

Rola, espreguiça, abana o rabo,

Chacoalha o corpo e pula da cama.

Saltitante, acompanha-me até a porta do banheiro,

aguardando pelo momento de ir tomar café.

Sabe que vai ganhar uma casca torrada de pão.

É hora de trabalhar...

Quando o carro sai da garagem

uma fenda lateral do portão é seu binóculo

a olhar-me partir; triste em seu choro canino.

Cadê ela?

Polly, a cadela companheira,

Amiga de toda hora.

Está esperando minha volta para tudo recomeçar.



Movimentos

Bernardo Santos


Salto

que pula

e corre

rolando

cansado

que soa

e pinga

no chão.

Que cai

e levanta

de dor

que suspira

e foge.


Poesia publicada no livro: Poeira de estrelas e sonhos, 2011.



Mata extinta

Bernardo Santos


Sobre tudo alguma coisa

resta na mata fechada;

a dor do prejuízo

a nuvem que passa

e não traz chuva.

Alguma coisa sobre tudo,

o hoje de sua existência

focando o amanhã

de sua morte.

Há na mata calada

pássaros que não cantam

ventos que não sopram

e muito em breve

não haverá mais mata

se não tocar a dor de destruí-la

pelo prazer de conservá-la.

 

Publicado no Livro: Poeira de estrelas e sonhos, 2011



Mundo-pião

Bernardo Santos

 

O mundo rola

bola linda por fora

e por dentro?

Quem sabe...

Lindo

feio

bola rola

mundo rolando

por fora.

Por dentro,

eu me roendo

ele se corroendo,

cambaleando

caindo

parando

sumindo...



Manifesto (em festa)

Bernardo Santos

 

Os três poderes tremeram.

protestos, gritos, cartazes,

passeatas, liberdade, democracia.

manifesto em ação.

Salve a manifestação!

O povo brasileiro deu o recado.

O Brasil acordou de um sono profundo

fazendo do sonho uma realidade.

Os meninos do passe livre

lançaram convites nas redes sociais

chamando a população: “Vem pra rua, vem!”.

Um mar de gente se formou em diversas cidades

como soldados dispostos à guerra

para dizerem basta! Chega!

Não aguentamos mais!

A hora é esta!...

Chega de transporte ineficiente e caro;

corruptores e corruptos;

educação mal educada;

saúde em descaso;

falta de infraestrutura e segurança;

mobilidade urbana nula;

sistema político falido

e cultura inculta.

“Queremos tudo resolvido com padrão Fifa

e uma faxina nas Câmaras, Assembleias e Congresso”.

Mas, nem tudo são flores...

Baderneiros não querem lutar;

querem quebrar, destruir e arruaçar;

conflitando o movimento pacífico

dos que buscam direitos humanos e paz.

Um quebra-quebra sem noção,

patrimônio público destruído,

empresários lesados,

desemprego.

Vandalismo desnecessário,

quando o que se quer

é melhor condição de vida.

Tumultos, confusões, ladrões,

saqueadores, aproveitadores, malandros.

Pedradas, pancadarias, fogo.

Briga intensa de mocinhos e bandidos

com policiais na defensiva:

Bombas de gás lacrimogêneo,

canhões d’água,

balas de borracha.

Tiros de arma de fogo,

feridos, mortes.

Mudanças são necessárias:

de pensamento,

de caráter,

de costumes,

de posturas.

Não ficar deitado em berço esplêndido

já é um começo...

Quando tudo mudar,

O país muda e agradece.

Viver com dignidade é preciso;

cada um de nós merece.



Medidas

Bernardo Santos

 

Na mente

a banda

ou nada...

O anotador

anota

a dor

do ano.

Fez-se o nivelamento da cova

cavou-se profundo

acendeu-se à vela

e veio o lamento

da morte.

 


Mulher terra, homem céu

Bernardo Santos

 

Sentado na sacada

de uma nuvem branca

vê-se um tapete de concreto,

suas almas residem

como flechas vivas

na mão do arqueiro.

Cinzas de um passado

trancaram-se

com chaves de todas as portas

na casa do amanhã.

A vida não recua,

não retarda no ontem.

Vê-se a morte

do inverno seco

ralar na aspereza

para conservar a pele;

tudo mudado,

razão falida.

A terra cria

o que o Céu deixa cair

para complementar

o seu destino,

e que este seja para a alegria.

 


Mar misterioso

Bernardo Santos

 

Águas profundas e salgadas

que encantam a maior parte

da superfície da terra.

Mar de mistérios insondáveis

com a dominante cor verde.

Mar de próprios sentimentos

cheio de pureza

transbordado de segredos

jamais desvendados.

Lágrimas do firmamento

que caem em busca da terra

chorando em silêncio

deixando as águas banhar.

A natureza foi entalhada

com tamanha meiguice

e tamanho carinho

que do breve horizonte

até o vasto infinito,

tudo é tecido de beleza e amor.

 


Moléculas das sementes

Bernardo Santos

 

A semente cria o fruto

o fruto o alimento

a fome mata o pobre.

A cultura cria o inteligente

o inteligente o progresso

o progresso as máquinas

e as máquinas operadas

pelos homens

destroem o resto.

 
 
 

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