Considerado filho

 Bernardo Santos

 

Sorriso livre

e inocente,

que enriquece

o coração.

Olhar sincero

e puro,

que engrandece

a alma.

Filho do amor

carinho

e amizade.

Criança feliz

e estimada.

Recordação constante

da vida.



        Ciranda

Bernardo Santos

 

Aos trinta e cinco anos

uma vida de duplo sentido;

um ritual necessário

da passagem da idade.

São espaços deixados de lado

que estremecem os pequenos

e também os grandes.

Certas vozes agora chamam

com certos envelopes subscritos;

são notícias dos casais

dados como mortos ou engelhados,

ontem damas de honras

carregando seus buquês

hoje, acompanhantes de funerais.

Três filhos adolescentes

tristes no banco da capela

vendo a idade da melancolia.

Aos quarenta e quatro anos

velhos talentos

a desenvolver novos.

Sobrevivermos! Até quando?

Talvez seja uma convicção forte

de nossa firmeza pessoal;

em alguns dias

ela se assemelha a isso

e, contudo...

Coisas da vida!

Curta temporada

que vem e que vai

não balança mais cai

roda sempre

feito ciranda!



Catedral das montanhas

 

Bernardo Santos

 

No topo da colina

um silêncio profundo

invade o espírito

recém-nascido.

Mechas de luzes siderais

e relâmpagos extravagantes

deslumbram os olhos

purificados pela ausência.

Um balanço constante

no bailar das nuvens de chantili

faz flutuar os suspiros

ardentes de realizações.

O traje montanhês

influenciado pelo poder da lua

vai de encontro à fantasia;

ao paraíso das ilusões.

Cometas cruzam o céu

em velocidade constante,

levando sonhos de luzes fluorescentes.

Ao redor tudo é morro...

Distante os sinos tocam

baladas da serrania.

 

Publicado no Livro: Poeira de estrelas e sonhos



        Cante canário

Bernardo Santos

 

Cante canário

nos galhos

da palmeira

e corte os ares

com suas frágeis asas.

Cante canário

uma canção pura

que só você

sabe cantar.

Cante canário

No amanhecer

e que tua música

chegue aos meus ouvidos

para que dela

compartilhe

sua alegria.

Cante canário!

 

           Publicado no Livro: Poeira de estrelas e sonhos, 2011



       Caetanologia

Bernardo Santos

 

Vem de Santo Amaro da Purificação
sangue de baiano
garra de leão.
Cae, Cae
veio pra ficar
com muita força
e vontade de cantar.
“Esta noite se improvisa”
tornou-se popular
melhor prêmio de letra
“Um dia” veio conquistar.
Alegria, alegria
Tropicália
Todo dia
Crime de muita festa
depois veio Triste Bahia.
Ele é Joia

qualquer coisa
é também Araçá Azul
muito bicho faz sucesso
como ele nunca vi.
É vídeo-tape
imagem e som
artista famoso
no cinema transcendental.
Cae, Cae
é nosso carnaval.

Saudade da Bahia
Saudade de Gil
Gal, Bethânia.
Luiz Gonzaga, que programa!
Glauber Rocha, o passado presente.
Osvaldinho; aquele carinho.
Maiakovski, aqui está
esta força estranha
que me leva a cantar.


Cae, Cae
veio pra ficar
Cantar e sorrir
sofrer e chorar.


Caetanologia
É o estudo do Veloso
Caetano Veloso
é minha alegria.

(Poema com música, escrita e composta em Março/82. Parte integrante do livro: Olhos de Cristais, inédito.).



Criação

Bernardo Santos

 

Sem curvas... Sem direção.

Caminhos de linhas cruzadas,

de tudo um pouco

um pouco de louco.

às vezes, o encontro

num encontro de desejo.

Se não encontra, lamenta;

Encontra-se; não tem sentido.

Apoia-se no ombro

seu ombro nenhum

e os olhos são claros

tão puro os olhos.

Contudo chamar-te-ia

e ria com tudo a chama,

chama de fogo.

Objeto de ar.

Pergunta-se

e não responde,

chama-se

e não atende

além, além do amor

onde nada, tudo

aspira-se a criar.



Canção para ninar

 Bernardo Santos

 

Dorme, dorme

dorme, dorme

pequenino, vai nanar

feche os olhos sossegado

que estou a te embalar.

Um dia vai crescer

e pequeno vai querer ser!



Considerado filho

Bernardo Santos

 

Sorriso livre

e inocente,

que enriquece

o coração.

Olhar sincero

e puro,

que engrandece

a alma.

Filho do amor

carinho

e amizade.

Criança feliz

e estimada.

Recordação constante

da vida.



Confissão

Bernardo Santos

 

Conforma-te senhor!

O lindo quer ser belo

o feio quer ser bonito

o rico, milionário

o pobre, rico.

Perdoa senhor!

O mundo destes dias

retratado em tristezas

nas paginas dos livros

onde choram as poesias

suas penas de dor.

Tolera senhor!

A violência

a guerra

a fome

pois o homem

proclama sua independência

e nela constrói sua glória

para ver a sua derrota.

 


Caminhada

Bernardo Santos

 

Com um simples aceno

vai o menino

no teu silêncio longo,

cada vez mais distante

na busca ansiosa

de alcançar o mundo

pelo caminho.

O coração sobrevive

como fim da existência

e não são frutos da imaginação

pois todos querem esquecer,

mas seu destino é lembrar.

 


Canto final

Bernardo Santos

 

Suspirei poeira

respirei o pó

vomitei a terra

defequei o barro

ergui ruínas

com esta massa lamacenta.

Hoje, engulo seco

o resultado desta construção;

arquitetura mutilada.

Minha criação está falida

meu M U N D O está perdendo

os sentidos, a graça,

a originalidade.

Ele se separa

em fragmentos.

Os homens desuniram-no;

eu continuo a fazer parte dele

e ele não quer mais fazer parte de mim.

Agora somos dois num só destino:

O FIM.                  

 


Comício

Bernardo Santos

 

Na boca louca, perdida

deslizava as palavras

numa cascata de saliva.

 


Corrente do amor 

Bernardo Santos

 

Eis que todos correm

num ritmo veloz, constante,

perturbador.

Cada qual num caminho

na mesma busca

sem destino, sem opção.

Na inédita velocidade

segue o aventureiro, o romântico

tentando mapear um sonho, um desejo;

mesmo considerado inatingível.

Ao fim da linha,

são bloqueados por uma parede de gelo

e por trás dela tentam ocultar

açucaradas histórias de amor.


 
 
 

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