Uma trama se desenvolve em meio a personagens até certo ponto conflitantes, que encerram o dia-a-dia da vida urbana. Aí se coloca aquela velha trama tão bem desenvolvida pela Hoolywood de antanho (Vide Gilda): o triangulo ódio/amor/morte, onde os desejos, as dúvidas, as insatisfações, as buscas desenfreadas formam o cerne deste romance.

     Bernardo, contrariando as regras de todo autor iniciante, que sempre procura trabalhar em temas de mais fácil acesso, procurou desenvolver um enredo difícil de ser conduzido, e através de uma alquimia da qual só ele sabe a fórmula, consegue sair ileso em sua iniciativa. Sim, porque a questão da dualidade de personalidade é complicada demais para ser resolvida, porque geralmente leva a um besteirol sem sentido. Quem não se lembra dos folhetins de Janet Clair?

     Depois das onze revela, desta forma, um autor em estréia, que pode perfeitamente crescer no quadro ficcional. É bem verdade que os personagens enfeixados na obra prescidem de ação mais comprometedora, mais insinuantes, porém o texto toma uma certa substância quando aflora o lado poético do autor.

     Dando um mergulho na obra, encontramos Eva, a personagem central, ao lado de Henrique, uma espécie de narrador, conhecedor mais aproximado da história daquela, que carrega consigo uma postura amargurada, negativa, sempre à procura de mudança.

     Cansada da vida fácil, da simples condição de poço de esperma, decide, enfim, transformar todo o curso de sua vida, adquirindo a identidade de um homem: Odilon. No entanto, a personagem, ela própria, em momento algum se deixa convencer dessa transformação. Quando Eva, a mulher angustiada, à procura de ilusões; quando Odilon, um ser extremamente confuso, disposto ao isolamento. Já Henrique, o narrador, também demonstra ser alguém angustiado, vivendo/sofrendo situações do passado. Um passado que em momento algum se acentua.

     Através das andanças de Eva é que o autor presentifica o cenário urbano, poeticamente desenhado. Ora, a imensidão da paulicéia, ora a sempre azul paisagem da Guanabara. A cidade e suas paixões. A cidade e seus encontros/desencontros, sua eterna solidão das esquinas. Uma mesma solidão de caráter universal, haja vista a descrição da capital francesa, com seus pintores de fim de tarde, seu passado sempre presente através da sua cultura, sua gente dispersa. Trechos da vida de um povo, vestidos numa linguagem simples, despojada de enfeites retóricos. E, nessa linguagem simples é que o fato consegue ter uma significação mais profunda.

     E Eva/Odilon/Henrique prosseguem, tão próximos e tão distantes, compondo um cenário trágico/cômico, conseguindo em alguns momentos, perturbar o leitor em meio à trama.

     Temos também que considerar dois níveis de leitura: a narrativa da personagem Henrique e a outra, que envolve o mundo que o rodeia. Pois é onde se encaixam as expectativas, o suspense, e onde se desenvolve a curiosidade do leitor com relação à personagem principal: Eva, já que outras personagens que povoam a história são apenas meros personagens, colocados em alguns momentos, sem significação mais clara.

     Louvamos a iniciativa do autor, e torcemos para que continue nessa luta literária. Uma luta tão árdua, mas precisa. Depois das onze é uma boa estréia.

 

 

São Paulo, outubro de 1987

 

Luís Avelima

 
 
 

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